Confissões do Crematório – Vamos falar sobre Morte

livro smoke gets in your eyes brasil, confissões do crematórioAchei aqui algum tempo atras algumas anotações sobre o livro Confissões do Crematório de Caitlin Doughty. E decidi dividir com vocês. Então, isso não é uma resenha convencional, pra mim.

Esse livro precisa ser lido e discutido, não guardar na gaveta. Você tem que encher de post it, e vira e mexe lembrar e ler algumas partes novamente.

Confissões do Crematório fala especificadamente da morte nos estados unidos, mas como aqui no Brasil adoramos copiar os gringos e velório & embalsamento é muito comum também, podemos refletir e encaixar algumas peças aqui na nossa realidade.

Depois que eu terminei de ler eu precisei falar sobre os pontos que mais me tocaram e discutir um pouco sobre a morte com quem me quiser ouvir, então agradeço por você ai estar lendo isso.

A gente precisa discutir sobre a morte, assim como a gente discute sobre o que vem depois dela. E falar da morte não é falar de como morrer, atrair azar, trazer a morte perto, mas discutir algo muito importante. O que fazer com a carcaça?giphy.gif

“Por mais que a tecnologia possa ter se tornado nossa mestra, precisamos apenas de um cadáver humano para puxar a âncora do barco e nos levar de volta para o conhecimento firme de que somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres”

Lutamos tanto, praticamente a vida toda para manter nossa casca atraente, imaginando que depois do ultimo suspiro  ela evapora e vira purpurina. Perdemos a ligação com a realidade. Putrefação é tão natural e necessário quanto a concepção.

E você já parou para pensar de modo racional em como lidamos com a morte? Com o fator apodrecimento e funerais? Bem, antes desse livro eu não.

“Aceitar a morte não quer dizer que você não vai ficar arrasado quando alguém que você ama morrer. Quer dizer que você vai ser capaz de se concentrar na sua dor, sem o peso de questões existenciais maiores como “Por que as pessoas morrem”?” e “Por que isso está acontecendo comigo?”. A morte não está acontecendo com você. Está acontecendo com todo mundo.”

Eu não sei vocês, mas eu cresci vestindo uma capa fantástica de imortalidade. Criei uma ilusão tão boa de que eu jamais iria morrer porque na minha cabeça eu era legal demais pra isso, morrer não combinava comigo. Tanto é que ao fazer 18 anos, falei para deus e o mundo que era apenas 17 anos parte 2. Tolinha, eu sei. Esse pensamento esta tão ligado a mim e a muitas pessoas jovens que parece inato. As vezes até pode ser.

O que mais vemos por ai são formas e desejos de ser jovens para sempre, amar para sempre. Sempre. Sempre. Sempre. Mas queridos, nadinha de nada nesse mundo é pra sempre sabia? Porque ignoramos tanto isso?

giphy (1)“Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma benção – é só um tipo mais profundo de pavor.”

Esse livro veio me dizer coisas que ninguém tinha me dito, ou até posso dizer que tentaram me dizer, porem eu nunca parei para ouvir.

Na verdade a gente demora um pouco para ver a morte, refletir a morte, sofrer pela nossa morte iminente, e aceitar que é normal.  Porém existiam épocas, como no século XIX onde uma família normal que tivesse 5 filhos, eles teriam sorte se 2 deles vivessem alem aos 10 anos. Isso era horrível, claro obvio. Mas esse não é o ponto, ninguém gosta de crianças morrendo. Acontece que a morte era tratada de modo diferente,  os rituais eram diferentes, as crianças carregavam os caixõezinhos de seus coleguinhas mortos.

giphy (3)“Cada cultura tem rituais de morte capazes de chocar os não iniciados nela e desafiar nossa teia de significados pessoal, (… ). Contudo, existe uma diferença crucial entre o que os Wari’ faziam e o que os tibetanos fazem com seus falecidos em comparação ao que Bruce fez com Cliff. A diferença é a crença. Os Wari’ acreditavam na importância da destruição total do corpo. Os tibetanos acreditam que um corpo pode alimentar outros seres depois que a alma o deixou. Os norte-americanos praticam o embalsamento, mas não acreditam nele. não é um ritual que nos traz consolo; é uma cobrança adicional de 900 dólares na conta da funerária.”

Isso pode parecer muito chocante. Porém, a forma como um cadáver era tratado era muito mais natural e pessoal do que hoje em dia. Criamos uma ilusão, você não percebe?

Se tem uma coisa certa nessa vida é que tudo que nasce morre.

Hoje demos a morte uma nova mascara, que algumas épocas passadas era usada pelo sexo e o ato da concepção em si. Aquela mascara fanatística que trazia os bebes em cegonhas, de plantação de couve, sabe lá mais o que. Antigamente sexo era profano e impuro, não é difícil procurar culturas que o ato era tão repudiado que era realizado de roupa, toda a roupa e apenas com finalidade de procriação.

A nova cegonha é a famosa estrelinha no céu ou flores na terra. Não estou falando em pós morte e sobre o que existe depois, não estou falando de alma espirito etc. Mas o seu corpo, esse corpo que você tanto cuidou, lavou e investiu dinheiro para que refletisse seu interior. Será que você sabe o que vai acontecer? Será que temos que ignorar o que vai acontecer?

A ignorância sobre a morte é diferente das outras ignorâncias, porquê você sabe que vai morrer apesar de ignorar. Mas esses pensamentos quanto evoluímos, mais se consolidou.A ignorância, o pecado que é um cabelo grisalho, a repugnância de uma ruga. Quantas marcas e produtos desesperados em vender a formula que vai te manter com cara de 20 aos 40 anos. Prolongar sua vida, iludir e fazer achar que quase não somos mortais como os outros mortais que não vamos feder tanto quanto um gambá apodrecido na estrada e que vamos apodrecer e virar pó assim como uma pomba que caga no nosso carro. Não tem muita diferença sabe.

giphy (2)“Embora você possa nunca ter ido a um enterro, dois humanos do planeta morrem por segundo. Oito no tempo que você levou para ler essa frase. Agora, estamos em quatorze.”

Quanto mais evoluímos, mais distante ficamos do que ocorre com o nosso corpo, só vemos a putrefação quando o sistema é rompido. Criamos uma teia muito boa para esconder nossa mortalidade, o embalsamentos virou rotineiro quando não precisava ser.  O sentido do ato morrer mudou, nos EUA no séc XIX 85% das pessoas morriam em casa, já nos anos 30 vieram a ideia de “medicalização” da morte, e todo mundo passou a morrer em hospitais.

E o processo de cuidado com o cadáver se tornou puramente estético, químicas, algodão e colas são usados para que os vivos não deem de cara com o que os espera no futuro. Não é mais sobre ultimas homenagens, ou rituais e crenças, mas sobre de esconder a morte dos que vão morrer. Honestamente ninguém quer morrer, mas nos vamos morrer e temos que estar preparados, e encarar a morte como parte da vida.

“Podemos nos esforçar para jogar a morte para escanteio, guardando cadáveres atrás de portas de aço inoxidável e enfiando os dentes e moribundos em quartos de hospital. Escondemos a morte com tanta habilidade que quase daria para acreditar que somos a primeira geração de imortais. Mas não somos. Vamos todos morrer e sabemos disso. ”

Anúncios

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s