Bom Dia, Verônica – Resenha

IMG_1011Você nunca imaginou que algo tão cruel pudesse ser real.

É essa a frase que primeiro se lê do livro “Bom dia, Verônica” da misteriosa Andrea Killmore (Andrea matamais, como apelidei). Confesso que não dei muito atenção a essas palavras, pois depois de tantos livros, depois de tantas noticias, filmes horríveis e coisas do tipo. Não é qualquer coisa que nos espanta e fica fora da nossa capacidade de imaginação, não é mesmo?

Não sei porque é difícil falar deste livro, não sei se é porque ao vê-lo na estante, sinto como se tivesse um pedaço de cadáver podre em forma de livro. Bem, eu já li uma boa duzia de romances policiais, já assisti há vários filmes de terror e já assisti linha direta (haha).
Porém, nada me deixou tão incomodada e agoniada como esse livro. Foi um dos poucos que li que conseguiu passar a sensação de asqueroso e macabro. Acho que o porque se  deve a história se ambientar aqui e podia ter acontecido comigo, ou com você.

“O ser humano é podre e egoísta, prefere o problema que já conhece a enfrentar o desconhecido com honra. ”

Verônica é uma secretaria de Polícia Civil. Especificadamente no departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa. Ela é uma mulher comum, com um passado conturbado e uma família comum. Porem em suas veias corre o desejo de se destacar como investigadora e policial, de provar que ela pode sim fazer algo de prestigio. E quando uma mulher se mata na sua frente, seu chefe pede para abafar o caso. Ela, então vê a chance que tanto quis para investigar.
Em paralelo temos outra história, outra mulher. Janete está em um casamento extramente abusivo, seu marido um PM, a obriga a fazer cosias horripilantes com jovens moças que chegam do interior a São Paulo em busca de oportunidade.
Em um momento de coragem súbita, a vida das duas mulheres se cruzam. Então  é assim que começamos a acompanhar a história dessas três mulheres, cada uma com sua própria personalidade e motivações. Tão bem escritas que você fica o livro todo se perguntando se é ficção ou realidade, o que torna tudo mais agonizante.IMG_1012.jpg

“Mulher é que nem índio, se pinta para a guerra que enfrenta todo dia.”

Temas obscuros e outros cotidianos são entrelaçados nessa história. Homens que se aproveitam de mulheres inocentes, estupro, abuso de poder até coisas como necrofilia rituais indígenas. Tudo muito explicito, com absolutamente nenhum filtro, você cai de cabeça nessa parte dark da realidade.

“Como alguém pode mentir de modo tão cruel só para arrancar dinheiro de uma mulher iludida?”

Os personagens, como toda a trama e enredo são muito reais. Quantas Janetes e Verônicas passam por nossas vidas a todo momento? No ônibus, no metro ou na fila do pão? Eu estava andando numa maré de livros ruins e mal construídos, então dar de cara com personagens que possuem uma essência, uma linearidade de pensamento e ações é aliviante.
Você não se apega a nenhum personagem, eu não me apeguei. Odiei Verônica, odiei  Marta Campos e odiei Janete. Mas cada uma de uma forma e de intensidades diferentes com o passar do livro. É tudo tão agonizante que mesmo você odiando as ações e motivações das personagens, você até torce e sente a dor com elas. Adoro livros que garantem esse nível de submersão.
Nunca havia lido um terror brasileiro, situado em alguma cidade conhecida que falasse a minha linguá e que me colocasse diretamente com personagens que eu poderia conhecer na vida real. Porque vamos falar sério, ao ler romances policiais suecos, londrinos ou americanos não temos tanta aproximação. Pois tudo nesses países de primeiro mundo parece funcionar de um modo totalmente diferente do nosso. IMG_1014

“Uma tesoura? Bisturis sendo afiados? Facas? Cada Golpe silencioso é seguido por gritos guturais de Deusa. Janete sabe que vai passar a noite toda dando forma e cor aos berros da coitada. É uma intrusa na dor dela.”

No começo do livro, já nos primeiros capítulos já senti o impacto da narrativa, de forma clara sem medo ou papas na língua. A autora vai contar uma história mais real do que se espera, com personagens que poderiam ser você, sua tia, sua mãe.
Vai ainda te por medo e brincar com suas ideias de segurança. Quem é o mocinho? Você está seguro? Os caras maus vão ser punidos no final? Você realmente conhece as pessoas ao seu redor?

Acredito que o que mais me incomodou e deu fermento para essa narrativa foi a politica brasileira, o sistema, a forma como a polícia age e como as coisas aqui funcionam. Vemos casos de Seriais Killers na internet, no investigação Discovery. Mas ta tudo bem, porque sempre o badguy vai ser pego e condenado a prisão perpetua ou a morte.
Bem, que lindo. Porem e ai na sua cidade? Será que os EUA ou os países mais desenvolvidos tem uma bactéria no ar onde só nascem sociopatas lá e aqui não. Bem, as vezes somos bem iludidos. Falo por mim, claro.IMG_1016

Esse livro não foi o meu preferido e não foi gostoso de ler. Quase abandonei em diversas partes por achar que eu não tinha capacidade de continuar, xinguei os personagens até dizer chega, mas não consegui parar! Era tudo muito real e eu nunca tinha lido nada parecido.
Então aqui está um livro nacional, macabro que se entrelaça de maneira inesperada em alguns pontos, onde depois que ler onde você via uma bela capa roxa vai enxergar algo putrefato e asqueroso. E por isso é um ótimo livro, porque foi pra isso que foi escrito e para isso que deve ser lido.
Ele tem uma proposta, se você não quer enxergar o que se esconde nas sombras passe longe. Mas lembre-se ignorância nem sempre é uma bênção.

Bom Dia, Verônica. 
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