Antigo Fantasminha

“Você sabia que quando a gente lê os seus textos, todos eles passam uma sensação de que você está presa lutando para se libertar? ” Disse minha amiga em uma noite depois de ler o que eu escrevia. Me dei conta de que eu escrevia sobre tudo o que eu sabia, tudo o que eu sentia. E eu sentia muita tristeza, logo a tristeza se mostrava no que eu escrevia.

Olhei com atenção a minha criação e vi esse pássaro metafórico em sua gaiola metafórica lutando metaforicamente para sair de algo que ele não sabe o que, metaforicamente é claro. Quando eu penso na tristeza, me lembro de como ainda criança no começo da segunda infância, ao brincar com uma história inventada, de tão triste, tive de deixar as bonecas de lado e chorar. Chorar de tristeza por algo que eu mesmo inventei, se isso tivesse parado por aí, talvez hoje eu escreveria sobre outras cosias.

Entretanto ela sempre esteve ali, um pouco demais, um pouco exagerada. “Porque você está tão mal sobre isso? ” Eu não sei, só sinto. Sem nenhum passado traumático, nenhum problema grande ou absurdo, com uma vida normal, privilegiada e boa eu ainda sim era assombrada por isso.

A questão é que hoje eu sei que passa, ela vem e vai como uma enchente. Espero vir, corro pra não destruir muita coisa depois concerto o que foi danificado. É fácil dizer que passa depois que já passou, mas ali, no centro do tornado sentindo tudo ir pelos ares e você levada para sabe Deus onde, dizer que passa pode não funcionar muito bem.

O mal da tristeza é que ela isola, tristeza contamina, ninguém quer ser contaminado e você não quer contaminar ninguém. Tristeza cansa, te faz desmarcar as coisas em cima da hora, e depois de tantas vezes desmarcando, os convites param de chegar. Depois, sozinho dentro de casa você fica triste por não sair. É um círculo vicioso, um redemoinho que te leva sempre pra baixo, mentiras criadas pelo próprio cérebro para sabotar as tentativas de sair daquela rotina.

Eu escrevo sobre o que eu sei, e eu conheço a tristeza. Um radar calibrado pronto pra detectar aquele olhar, aquela expressão. Observo esse fantasminha que vem de leve como quem não quer nada e acaba se tornando um caso para forças militares se não tomar cuidado. Quando ando na rua, quando converso com alguém no ponto do ônibus. Ali atrás daquele sorriso amarelo, debaixo das ruguinhas que se foram quando alguém sorri, a gente sempre acaba percebendo. É aquela luta diária, tomar o que tem que tomar, viver o que tem que viver e escolher a coragem todo dia, de enfrentar aquela antiga dor.

Um pensamento sobre “Antigo Fantasminha

  1. É com alivio e tristeza, ver que não sou a unica que sofre desse ciclo, onde a tristeza vem não sei de onde, causa um estrago danado, vai embora nos deixando só, nesse estado devastado. Bem, só passando para, na esperança de que do mesmo modo de já não mas me sentir sozinha, sabendo que tem sim gente como a gente. Enfim, tentar levar essa mesma sensação pra te.

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