Sereia Invisível

Existiu por um tempo, uma vez, uma garota que não era comum, possuía uma cauda furta-cor, que nas profundezas do oceano se camuflava entre o azul profundo da imensidão e também a escondia quando mergulhava pelas águas azuis turquesas dos lugares paradisíacos. Seus longos cabelos, que sob a água bailavam, emoldurando seu rosto peculiar, acompanhavam as cores das barbatanas. Fazia tempo que nadava por ai. Pelos quatro cantos, de norte a sul, observando e aprendendo. Mas também deixando vestígios nos lugares, nas coisas, por todo lugar onde passava. Pelas câmeras de segurança aquáticas, nos lugares visitados por aqueles com pernas da superfície, na areia das praias. Em tudo o que podia ela deixava sua marca, um pequeno sinal de que havia passado por ali.

Estranhamente, sua sina era nunca ser lembrada por ninguém. Todos que a viam, sejam surfistas, mergulhadores ou banhistas, sem querer a esqueciam, perdiam seu rastro como fumaça. De uma hora para outra só viam símbolos e sinais espalhados pela praia. Sem saber quem os fez e porquê.

Ela construiu um local só seu, uma caverna que os da superfície não teriam acesso não têm acesso. Onde guardava ali tudo o que lhe era precioso, conchas raras, pedras preciosas, algumas coisas que encontrou ali e aqui. Depois de muito tempo aprendeu a cultivar anêmonas, e outras plantas que lhe agradou. Os peixinhos, crustáceos e moluscos vieram depois, seguindo o rastro do jardim aquático, achou curioso e os deixou ficar.

Nas paredes dos navios as suas marcas embelezaram a casca, até onde ela consegue alcançar. Sem saber o que significava os cidadãos da cidade apenas boquiabertos admiravam as belas artes que cobriam as superfícies. “Quem será que faz tão belos desenhos assim?” “Será que tem algum significado?” Às vezes se ouvia alguém perguntar, mas a resposta era a mesma, ninguém sabia dizer.

Entretanto isso não desmotivava a garota, que continuava a pintar, desenhar, rabiscar construir e modificar. “Me notem” pensava ela, enquanto deixava seu rastro para que alguém em fim viesse encontrar. Então ela observava todos eles, de perto e de longe, não se importava, ninguém nunca notava. Às vezes alguém na praia tropeçava em sua grande cauda, até mesmo caia, mas levantava e continuava como se nada tivesse acontecido. Derrubava de proposito sorvete das crianças, destruía castelinhos, tentava muito de todas as formas e nada.

Até que um dia ela se cansou, deitada na areia fofa do recife, observava alguns botes, barcos e lanchas irem e virem. Estava paradinha bem quietinha, ninguém poderia ver suas lágrimas salgadas em meio aquele imenso oceano. Ouviu um click baixo, foi quando viu um mergulhador com seu cilindro, apontado algo pequeno e estranho para ela. Uma pequena caixinha que com um novo click fez uma luz forte brilhar, tudo durou um segundo, mas suas pupilas adaptadas para ver em lugares pouco iluminados absorveu o choque por mais tempo. Por um tempo ela e o mergulhador se encararam, então ele se virou e nadou de volta para onde tinha vindo.

Demorou um tempo até ela conseguir ver aquela caixinha estranha novamente, e mais tempo ainda conseguir entender o que aquilo era. Primeiro ela roubou de um turista, depois ela achou uma que se perdeu nos corais. A primeira tentativa de descobrir o que aquilo era foi frustrada, assim como as outras seis que se seguiram. Nada mais a fazer, ela persistia, até que um dia descobriu, aquela maravilhosa caixinha congelava o tempo, e de certa forma não a esquecia.

Assim que se deu conta do que poderia fazer, sempre tentava de alguma forma aparecer, um pedacinho aqui um pedacinho ali em todos os clicks que ouvia, submersos ou na superfície. Em diversas cidades litorâneas, por orlas de praias quem passasse com uma caixinha daquela podia ver o rastro dela, apesar de mal desconfiarem todos eles guardavam uma parte dela, marcados pela mensagem ilegível “venha me encontrar”.

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