A Cor da Parede

Eu estava tentando ser alguém diferente quando ao ser questionada qual a cor que cobriria as paredes brancas e sem graça do meu quarto, escolhi o azul turquesa. O azul turquesa da alegria, da calma, da bondade, que traz felicidade, a união da alegria com a calma. A cor banhou duas das paredes do quarto onde eu passava a maior parte dos meus dias, e ficou.

Para combinar cortinas azul turquesa esverdeado emolduraram a janela. Na cama, uma linda roupa de cama, também azul turquesa me esperava chegar da escola. O quarto se encheu de alegria azul turquesa sempre feliz, sempre alegre, sempre contente.

Com o passar dos dias a pessoa que eu sustentava em ser começou a capengar, meio manca, tropeçando cada vez mais, sendo devidamente lembrada a maior parte do dia de sempre feliz, sempre alegre, sempre contente.

Nos dias chuvosos, quando o céu se tornava cinza ou quando a chuva vinha de dentro de casa, transbordando de dentro de mim. As paredes, as cortinas, a roupa de cama: Sempre feliz, sempre alegre, sempre contente.

Algo então começou a germinar dentro de mim de forma sucinta, cada vez que o ambiente se nebulava dentro de mim “Sempre feliz, sempre alegre e sempre contente” adubaram de forma necessária aquela pequena plantinha de raiva e revolta pela belíssima cor que havia escolhido.

Em um mundo de calma bondade felicidade e alegria suprema, a tristeza, raiva e solidão que minha casca humana sentiam eram sufocadas, julgadas e minimizadas. A cor me irritava. E com o passar dos dias me via obrigada a ser “sempre feliz, sempre alegre e sempre contente” A cor já não me incentivava, pelo contrário, zombava da minha tristeza, desafiava minha raiva, minimizava meus sentimentos escuros.

Decidida estava eu ao caminhar pela loja de tintas, do mesmo modo que chocando a todos o azul petróleo foi escolhido para tomar lugar do então odiado azul turquesa. O esforço foi feito, meu intimo satisfeito reverberava de felicidade alegria e contentação ao ver aquela tão desgraçada cor ser substituída por uma mais calma, misteriosa, acolhedora, viva e mesmo assim consciente das durezas da vida.

A nova cor me abraçava e através do seu forte pigmento eu a sentia dizer “Eu te entendo na alegria e na tristeza”. Nunca antes eu havia escolhido com tanta certeza, optado por uma cor que jamais em minha vida duvidei ou me arrependi.

Na maior parte dos meus dias, deitada sob os lençóis azul marinho, entendi o que eu deveria ser, o que eu deveria me permitir. Diferentemente do que eu queria ser, não sustentaria, nem iria muito longe negando a parte escura de mim, aquela que chora grita e se rebela. Não iria fazer muito mais coisas que eu virasse as costas para aquela parte que também era eu, que também criava, mudava e evoluía.

Ao contrário do que pensava, se permitir sentir as partes escuras quando ela vem não me faria uma pessoa das sombras, muito menos me transformar em quem semeia escuridão. Entender meu ser, e ter ciência das minhas pontas afiadas me permitiram aprender, evoluir e coordenar as partes escuras, antes tão rebeldes. Que ameaçavam se expor onde eu menos esperava, quando eu menos queria. Aguando meus olhos nos piores momentos, me fazendo dizer as piores coisas.

Tudo começou com a cor da parede do meu quarto, e terminou com auto aceitação de todas as partes de dentro de mim, abraçar todo o meu caos e me apaixonar por quem eu era. O azul marinho tão belo e misterioso como as profundezas do mar ampliou meus horizontes e me trouxe o que eu não esperava e mais desejava, trouxe a mim mesma.

 

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18 de novembro de 2015

2 pensamentos sobre “A Cor da Parede

  1. Sempre quando tem texto novo aqui já ate preparo meu psicológico. Que palavras profundas, Bia, que a gente sente a verdade envolvida no seu particular jeito de contar uma história. A vontade que dá é sentar e refletir sobre as cores, e escolhas e autoaceitacao dentro de mim também. Obrigada pelo texto ❤

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