A solidão incomoda.

A solidão é um remédio amargo que nos obriga a encarar nós mesmos, sentir nossos cheiros, limpar nossa sujeira. Encarar as partes sem limpar, os moveis arranhados, a torneira que pinga, as cicatrizes.
A solidão por muitas vezes é vista como um atestado de fracasso, um resultado amargo de que ninguém pode te amar. Uma pejorativa contra a obsessão da maioria. Uma falha grave ao único mecanismo de prazer humano.

O medo da solidão nos obriga a se jogar entre corpos, laçar qualquer um, ser perfurado por espinhos, ter corações despedaçados. Se ferir pelo outro pelo medo de doer quando olhar para si mesmo. Acreditamos que ninguém nunca vai nos amar tanto assim, ignorando que nós temos que nos amar tanto assim em primeiro lugar.

Eu amei enquanto sangrava, resisti uma ilusão enquanto negava. Negava que aquilo não encaixava, que não era bom, que era melhor ter algo morno a deixar ir e aparentemente não ter nada. Negava que estar sozinha era melhor do que mal acompanhada.

E quando se vive de muleta em muleta se escorando em qualquer um, pelo desespero de ser amado. – Mentindo, fingindo, se enganando de quem você é. – você cai, e a queda nunca tem fim se não tiver preparado uma base solida sob os próprios pés.

Quando criança o amor é irrevogável e incondicional. Mas não é suficiente, – nada nunca é o suficiente, não? – então buscamos um amor irrevogável, incondicional e ardente. Queremos ser consumidos, reduzidos a pó para não se incomodarmos mais com cada ponto interno que precisa melhorar.

Queremos ser amado pelo que nós somos, entretanto, sem ter a mínima ideia do que nós somos.

E se não nos amamos, se não pensamos no amor para além sexo, o que é amor mesmo? –

A solidão incomoda, pois quebra a rota que nos ensinaram, a rota dos instintos. A rota da fuga. A que tapa o buraco latente em nós mesmo com qualquer um que pareça minimamente o certo.

–Porque realmente sempre estar com outro alguém é muito melhor do que sozinho, não? –

O medo de solidão está em todos os lugares, em todos os livros, personagem, filmes e histórias. É uma blasfêmia aproveitar a própria companhia de forma pura. Um pecado contra o universo se bastar consigo mesmo, se respeitar ao ponto de não aceitar qualquer coisa que apareça pelo caminho e que não faz jus ao que realmente merecemos.

As vezes realmente achamos que merecemos o pior, porque estamos fugindo do que poderia ser o nosso melhor.

Porque você não se conhece, não sabe do que gosta, como se parece, do que se importa, do que te agrada. Então qualquer coisa serve, qualquer um funciona.

Quando tudo é sobre sexo, viver para além disso fere a obsessão geral.

Eu afoguei quando tirei os pés do meu barco, apostando na estabilidade do outro. Estabilidade de alguém confuso que não conhecia o reflexo que o encarava no espelho. Alguém como eu. Mas ao invés de confiar em quem jamais irá me abandonar eu acreditei nas lendas e pulei fora de mim.

O que nos define dos animais além de se sustentar sobre duas pernas, polegares e um cérebro. Se todos acabamos de quatro como coiotes no cio gemendo por pouco pra fugir de nos mesmos?

3 pensamentos sobre “A solidão incomoda.

  1. Exatamente! Não há necessidade de estarmos com alguém só para não se está só! Como disse a Lispector: “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.” Quando nos unirmos a alguém – quer queira, quer não – ansiamos ficar com esta pessoa por muito tempo, ou melhor, pelo tempo que durar. E para quê isto ocorra, deve haver carrinho, respeito, confiança…. Deve ser mais quê um amigo! Afinal de contas, nós iremos dividir nosso dia à dia com esta outra pessoa, não é apenas para não está só, que estamos com ela. Por isto, vários relacionamentos vão se desgastando, e vão sendo arrastados. Por ter perdido o entusiasmo, vão o mantendo por conveniência, por está acostumado com o outro. Com medo de ficar só, ou de não encontrar alguém, pelo menos, tão bom quanto o que está a seu lado. Por isto que apesar de tanta traição, eles ainda continuam mantendo o relacionamento. Fingindo para si mesmo, que isto vai ser passageiro, ou que algum dia vai conseguir mudá-lo. Ás vezes, são fatores que são visto desde o início do relacionamento, mas ficam se enganando. Quando se gosta de alguém, nós estamos gostando daquele alguém do jeito que ela é. Não devemos pensar que algum dia ela irá mudar, e sim, devemos pensar se estamos dispostos à aceitar os seus defeitos.

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